sexta-feira, julho 28, 2006

apagar a História


Fonte: www.elmundo.es

A Lei da Memória Histórica, para ressarcir, justamente, os perseguidos pelos crimes do regime franquista, foi uma promessa de Zapatero, de Março de 2004, juntamente com a retirada das tropas espanholas do Iraque e os casamentos homossexuais, quando ainda pensava que não ganharia as eleições. E, já durante este governo do PSOE, foi possível assistir à remoção de antigos monumentos a Franco e ao franquismo.

Os representantes do Partido Popular deram, por várias vezes, a entender que mexer no passado ou revisitá-lo servirá unicamente para reabrir feridas que a democracia espanhola tem tentado cicatrizar desde o final dos anos setenta. Alguns alegam até que lançar o debate sobre o tema da memória histórica não é mais do que uma forma de voltar a considerar o centro-direita espanhol como franquista e anti-democrático.

Entretanto, o Governo prepara-se para retirar uma das últimas estátuas a Franco, na Academia Militar de Saragoça, mas a grande dúvida recai sobre o que fazer com o faraónico mausoléu erguido, em homenagem ao caudillo e aos combatentes nacionalistas, no atemorizador Vale dos Caídos, perto de Madrid, onde continua o túmulo com o corpo de Franco.


Valle de los Caídos, em Espanha
Fonte: es.wikipedia.org

Na verdade, é difícil saber se é legítimo destruir ou transformar algo que faz parte da história de um país, seja uma parte boa ou má. No fundo, Zapatero reitera, agora em Espanha, um ritual que foi repetidamente executado nos países pertencentes ao antigo bloco de leste, ou mais recentemente no próprio Iraque, onde vimos capitular uma estátua de Saddam Hussein coberta com a bandeira norte-americana.

Uma coisa é homenagear quem lutou contra um regime autoritário e sofreu as ofensas e os crimes do franquismo, outra é fazer tombar estátuas.

Imaginemos, pois, que aqui mesmo em Portugal, a nossa quase centenária República decidiria retirar todas as estátuas monárquicas ou o próprio monumento ao Marquês de Pombal, que, embora iluminado, foi um governante autoritário e despótico que consta ter executado inocentes para se manter no poder.

Hoje em dia, nem sequer pensamos em deitar estátuas abaixo porque a maioria delas representa memórias demasiado antigas e que, por isso, não afectam a nossa sensibilidade política.

É realmente difícil avaliar a fronteira entre a justiça democrática e o radicalismo ideológico. Mas, sinceramente, valerá a pena apagar a história?

1 comentário:

João Triângulo disse...

Antes de derrobar a estátua do Marquês de Pombla é necessário colocar a questão: é possível construir no topo do parque Eduardo Sétimo uma estátua mais alta...?
Resposta: perguntem ao olho do grande oráculo.